
O ceticismo sobre a tecnologia de vigilância cresce entre especialistas
As críticas à inovação digital intensificam-se com denúncias de impactos sociais e questionamentos sobre a real utilidade dos avanços.
O universo tecnológico no Bluesky revelou hoje um panorama inquietante: a promessa de inovação está a ser sobreposta por debates sobre vigilância, fetichismo de velocidade e a real utilidade das novidades. Enquanto uns procuram democratizar o acesso e aplicar soluções em prol da justiça social, outros denunciam a transformação das cidades em panópticos digitais e questionam a eficácia das mais celebradas "revoluções" do setor. Uma análise breve basta para notar que, por trás do ruído publicitário, o ceticismo cresce e os usos sociais da tecnologia ganham protagonismo.
Vigilância, paranoia e os limites da inovação
A crítica à tecnologia de vigilância dominou o debate, com destaque para a denúncia dos videoporteiros inteligentes, que, segundo especialistas, fomentam o medo e a desconfiança entre vizinhos, prejudicando o tecido comunitário. O conceito de "luxo da vigilância", apresentado por Paris Marx, reforça que a adoção desenfreada de dispositivos espiões beneficia grupos privilegiados e aprofunda a marginalização dos mais vulneráveis. O apelo é para refletir antes de oferecer ou instalar tais tecnologias, considerando não apenas a comodidade, mas o impacto coletivo.
"Precisamos realmente pensar na tecnologia de vigilância que estamos a adotar — e certamente na que estamos a impor aos outros."- @parismarx.com (54 pontos)
A discussão estende-se à crítica dos produtos ditos inovadores, como os altifalantes inteligentes e dispositivos de inteligência artificial generativa, frequentemente vendidos como soluções universais mas carregados de riscos de privacidade e efeitos psicológicos adversos. A contestação de Aparna Nair à suposta revolução dos modelos de linguagem ilustra bem o cansaço dos profissionais diante da promessa exagerada de transformação. A tecnologia, afinal, não é panaceia.
"Só queria que quem trabalha em tecnologia e acredita que LLMs são ‘revolucionários' deixasse de assumir que uma tecnologia útil na sua área será igualmente transformadora em todas as profissões."- @disabilitystor1.bsky.social (19 pontos)
Revoluções que não revolucionam e a busca por propósito social
O entusiasmo acrítico por qualquer novidade tecnológica foi alvo de ironia e desabafo por parte de quem atua no setor. No Bluesky, profissionais como Yelling Jolteon expuseram o paradoxo do progresso: a aceleração do processamento de dados é celebrada como se fosse uma revolução, ignorando o contexto histórico e a ausência de aplicações verdadeiramente disruptivas. O exemplo dos eletrodomésticos "inteligentes" e dos chatbots sexuais evidencia que, muitas vezes, estamos apenas reinventando problemas antigos.
"Sinto-me como se estivesse na Twilight Zone, com todos a elogiar o que é basicamente um aumento significativo da velocidade de processamento de dados como se fosse tecnologia revolucionária."- @worldofcardboard.bsky.social (81 pontos)
Em contraste, surge no Bluesky uma movimentação voltada para o impacto social da tecnologia. O comité de transição tecnológica liderado por Ruha Benjamin destaca-se por centrar-se nas reais necessidades da população, como creches, habitação e transporte, evitando distrações com personalismos e focando no pragmatismo social. Iniciativas como o cargo de CIO para justiça e equidade e a reabertura do Pebble como open source sinalizam uma procura por soluções que transcendam o fetiche da inovação, apostando na sustentabilidade e no benefício coletivo.
Ruptura, fetiche e o futuro contestado
O clima de exaustão perante a retórica tecnológica torna-se patente nas intervenções dos utilizadores, como a crítica ao estado atual da inteligência artificial e a frustração com os debates jurídicos em torno da propriedade intelectual. O uso de medicamentos como Ozempic, transformado em metáfora de inovação por influenciadores tecnológicos, é recebido com ceticismo e ironia, demonstrando que a comunidade já não se deixa convencer facilmente por discursos de superação milagrosa.
Por fim, o episódio do HashJack attack expõe fragilidades dos navegadores dotados de inteligência artificial, mostrando que, por mais avançadas que sejam, as soluções tecnológicas continuam vulneráveis a truques simples. O dia no Bluesky revela, assim, uma comunidade dividida entre a desilusão com o fetiche do novo e a esperança de que a tecnologia, quando guiada por propósitos sociais, possa enfim cumprir o seu papel transformador.
O jornalismo crítico desafia todas as narrativas. - Letícia Monteiro do Vale